Produção de Vídeos

Edição de vídeo: como surgiu a arte de contar uma história com imagens

A história da edição de vídeo se mistura com a história do cinema. Saiba como surgiu esta função e sua importância para o audiovisual.

Escrito por Netshow.me em 19 jun 2019 | Atualizado em 10 ago 2021

17 minutos de leitura

Luarembepe / Flickriver

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Podemos comparar a construção da nossa memória ao longo da vida com o processo de edição de vídeo. Nós cortamos e colamos as imagens, falas e acontecimentos independentemente de tempo e espaço. É a maneira que o nosso cérebro encontrou para construir a nossa história, já que ele não consegue guardar tudo na nossa memória. E foi exatamente isso que inspirou o início do processo de montagem.

O que é edição de vídeo?

O que um editor de vídeo faz? Corta as imagens.

Um filme é a soma de várias imagens cortadas e coladas. Mas há algo de mágico nessa junção. E é essa magia que pode fazer toda a diferença na maneira como contamos uma história. Esse é o poder da montagem: pegar uma cena e juntar com outra para dar um terceiro significado. Esse terceiro significado é um efeito, uma emoção, que é muito superior à soma total das duas partes que lhe deram origem. Por isso, a edição de vídeo é a parte mais importante de um filme. O que faz um filme ser um filme é a edição.

Houve um tempo em que não havia corte, ou seja, não havia os editores.

Os diretores apenas filmavam aquilo que os interessava ou os divertia com a câmera parada até acabar o rolo do filme. Era o ínicio do cinema, apenas um experimento. E eles achavam que o cinema não tinha futuro. Afinal, por que o público pagaria para assistir a cenas que poderiam ver na vida real? Qual era a diferença?

O início da edição de vídeo

Edwin Porter, um dos funcionários de Thomas Edison, provou que eles estavam errados. Porter descobriu que cortar cenas diferentes e juntá-las podia criar uma história. Entrecortar cenas em que ocorrem ações paralelas, mas que não acontecem em um mesmo local, gerava um impacto emocional no público. Foi aí que se deu origem a uma nova arte e a uma nova linguagem por meio da edição de vídeo.

A invenção da montagem foi o que permitiu que o cinema se desenvolvesse.

Esse corte pode nos transportar, num piscar de olhos, a milhões de anos atrás, ligando a pré-história a um futuro imaginário, como na famosa cena de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”.

A edição é uma ferramenta tão poderosa, que ela pode desacelerar e, em seguida, acelerar o tempo para dar ênfase a um sentimento. A precisão do corte pode assustar a plateia em um filme de terror ou diverti-lo na comédia. A escolha e a duração da cena feita pelo editor influencia na forma como respondemos ao que está na tela.

“A montagem é a razão pela qual as pessoas gostam de ir ao cinema”, diz Walter Murch, mestre da montagem em Hollywood. E continua: “O editor precisa ser uma espécie de representante do público. Como montadores, apenas vemos o que está na tela, e não o que se passa durante as filmagens. E é assim que aparecerá aos olhos do público. Faço questão de não ir aos locais das filmagens, de não ver os atores sem o figurino, de não ver nada a não ser as imagens que me chegam às mãos.”

O primeiro grande nome da edição de vídeo

D. W. Griffith foi o primeiro grande cineasta a entender a importância psicológica da montagem. Ele fez mais do que ninguém para desenvolver as ferramentas de narração que Porter criara dez anos antes. Griffith inventou e popularizou técnicas que se transformaram em regras básicas do cinema. Os seus melodramas foram os primeiros a atrair o público para o mundo emocional de seus personagens.

Ele também foi o primeiro a usar o close-up, um plano em que apenas o rosto do ator está em cena. Isso assustou os produtores da época, que acreditavam que, se estavam pagando o ator ou a atriz, deveriam ver o seu corpo todo na cena, e não um rosto ocupando a tela inteira. Eles também não sabiam como o público iria reagir a esse tipo de plano. Mas a reação foi positiva.

Griffith passou dez anos experimentando diferentes planos e técnicas de montagem. Seu trabalho é muito valioso para o cinema até hoje. Além de planos ousados para a época, ele também inseriu flashbacks e ações paralelas. Usava todo tipo de coisas para chamar a atenção do público para determinada parte do frame.

Ele também é o responsável pelas regras da montagem clássica no cinema, como o conceito do corte invisível, em que uma ação é sempre continua, fluida e em movimento. O objetivo é disfarçar o corte para que o público não o notasse e pudesse esquecer que estava vendo um filme. A edição com o corte invisível é praticada até hoje e foi o estilo de montagem dominante nos filmes de Hollywood durante décadas.

“Tudo tem por fim contar uma história. E tudo o que queremos é que a pessoa se envolva emocionalmente na história para que se torne uma obra invisível.”
Sally Menke, montadora de “Pulp Fiction” e “Kill Bill”

Dos cortes invisíveis…

A edição de vídeo é uma arte invisível. Quanto mais imperceptível o corte de um filme, mais talentoso é o editor. Porém, infelizmente, os cortes invisíveis tornaram os editores invisíveis e não valorizados. Durante anos, eles foram um segredo bem guardado. Os primeiros “operadores de montagem” eram considerados apenas mão de obra ao invés de criadores no processo.

Atualmente, o editor se tornou o principal colaborador do diretor. Ninguém da equipe passa tanto tempo trabalhando sozinho com o diretor como ele.

Penso que os montadores têm um papel importante para os diretores, dar apoio, fazê-los sentir que podem olhar para uma coisa que pode ter problemas e ficar à vontade para lidar com essas questões. No início, Tarantino não me orienta em nada, e depois eu monto o que eu acho que ele quer. E já trabalhamos juntos há tanto tempo, que consigo adivinhar o que ele quer. Trabalhamos tão intensamente, que é espantoso ainda gostarmos um do outro. Se estivesse tanto tempo com o meu marido, acho que não gostaria tanto dele.”
Sally Menke

Os russos também fizeram parte da história do cinema, como Serguei Eisenstein. Ao contrário dos americanos, seu cinema era político. Ele combinou todas as experiências da época de filmes documentais com a ideologia marxista, criando filmes de fervor revolucionário. Ele via a edição como um confronto de imagens e ideias. O significado do filme não estava nas cenas em si, mas no seu confronto de imagens. Ele dizia que: “Quando dois elementos entram em conflito, a sua colisão cria um novo significado de uma ordem superior.”

…aos cortes visíveis

Enquanto Griffith tentava esconder os cortes, Eisenstein deleitava-se com eles. Ele queria que o público sentisse o frame, soubesse que era um filme, e não a vida.

Uma das suas montagens mais famosas é a do filme “O Couraçado Potemkin”. A cena de ação da descida dos degraus de Odessa é incrível. Um aula de montagem que é usada até hoje em salas de aula.

O estilo de montagem dos russos era, na verdade, uma resposta ao que Griffith fizera. Havia apenas a montagem clássica e, agora, viria a montagem de Eisenstein. Qual seria a próxima?

A chegada do som e a explosão de filmes

O cinema americano, que não era bobo nem nada, absorveu toda a técnica dos russos, e até hoje esse estilo de montagem faz parte dos filmes de ação hollywoodianos. Não por motivos revolucionários, mas apenas para a diversão do público. Eles descobriram que a mistura de suspense com ação fazia a plateia saltar da cadeira.

Nos anos 1930, o cinema se tornou um negócio ainda mais próspero com a chegada do som nos filmes. Foi uma mudança radical na indústria cinematográfica. Hollywood se equipou como se fosse uma fábrica e produzia tantos filmes em massa quanto carros na época. Não importava se eram bons ou não, eles precisavam estar prontos e nos cinemas.

“Nesse momento do cinema, era preciso um sistema industrial para que tudo aquilo funcionasse. Nos primeiros 30 anos do cinema, muitos montadores eram mulheres, porque era considerado um trabalho para mulheres. Era algo como tricotar, era como a tapeçaria, o bordado, em que se pegava em pedaços de tecido que depois eram unidos. Foi quando surgiu o som que os homens começaram a se infiltrar no meio das montadoras, pois o som era de certa forma elétrico, técnico, já não era como tricotar”.
Walter Murch, editor e compositor

A chegada do som aumentou o papel do editor em Hollywood. Nos anos 1930 e 1940, os diretores raramente entravam nas salas de montagem. A montagem era controlada pelos estúdios e pelos seus montadores-chefe.

Uma mulher entre os poderosos da edição de vídeo

Na época, uma mulher se destacou entre os poderosos. Seu nome era Margaret Booth, montadora-chefe da MGM durante 30 anos. Dominando a transição para o som, ela chamou a atenção do produtor Irving Thalberg, que foi o primeiro a dar valor aos montadores de cinema da época ao não tratá-los apenas como técnicos de montagem.

Ela teve um papel muito importante na MGM, pois era ela quem aprovava todas as montagens e chamava a atenção dos editores, dizendo: “Vocês são responsáveis pelo ritmo do filme, por conseguirem o melhor desempenho dos atores e por torná-lo o melhor que puderem. Se acharem que há um corte a ser feito em determinada cena, seja ele certo ou não, corte, corte pela emoção.”

Booth também ajudou a tornar vários atores da época famosos. Os editores ainda hoje fazem o mesmo, pois eles podem controlar totalmente o desempenho do ator na montagem. São eles os responsáveis por decidir qual take de cada cena é importante para o filme e interpretar a atuação como boa ou não.

“Outra forma de ver a montagem no cinema é como uma dança dos olhares. O nosso cérebro precisa perceber o que os atores estão olhando e por que. E assim como mantemos as cenas por um determinado tempo, permitimos que haja um determinado curso de pensamento. Quando cortamos uma imagem, também cortamos o pensamento sobre essa imagem.”
Walter Murch

Edição de vídeo e política

Os diretores perceberam que o som e a imagem não só estimulavam as emoções, como também podiam influenciar as crenças. Durante a 2ª Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos contratou os melhores diretores de Hollywood para produzirem filmes de propaganda americanos e influenciar os cidadãos com imagens que gerassem um sentimento de união e patriotismo. Os líderes políticos alemães e americanos reconheceram o poder de manipulação do público por meio do som e da imagem no cinema.

Um dos exemplos mais abomináveis foi o filme de propaganda nazista “Triumph of the Will”. A diretora Leni Riefenstahl usou o som, a música e a montagem para transformar Adolf Hitler em um deus.

Usadas na propaganda ou no entretenimento, as técnicas mostram o poder da edição de imagens em moldar e manipular corações e mentes. Ou seja, editar é manipular.

A influência francesa na edição de vídeo

Logo após a Segunda Guerra, Hollywood voltou a fazer filmes de ficção como antes, em larga escala. Tratando seus montadores como meros técnicos, os filmes tinham sempre os mesmos cortes e seguiam uma espécie de regras para a montagem. Um plano aberto que corta para o fechado, do fechado para o aberto, e a fusão como passagem de tempo.

Enquanto isso, na França, um grupo de críticos do cinema que se tornaram diretores começaram a desafiar a doutrina hollywoodiana da montagem invisível e lançaram uma nova revolução entre os montadores. Esse movimento ficou conhecido como a “Nouvelle Vague Francesa”.

Jean-Luc Godard foi um dos diretores mais famosos do movimento Nouvelle Vague. Ele costumava saltar os cortes nos seus filmes porque pensava: “Por que não?”. E transformou seus cortes em uma técnica famosa, “Jump Cut”, que significa pular o corte.

O que o movimento da Nouvelle Vague trouxe para a montagem foi o “quebrar das regras”. Isso significa violar as regras de edição, como o tempo de duração da cena, descontinuidade do que estava acontecendo e mistura dos ângulos das imagens. Ele queria mostrar uma nova forma de montagem para contar uma história.

Edição de vídeo e a criação de histórias

Mesmo depois de tantos diretores e experimentos, o editor de imagem é o verdadeiro contador de histórias. Primeiro, o roteirista escreve a história. Logo depois, o diretor filma. Mas a narração daquela história é feita pelo montador. É na ilha de edição que toda a mágica é feita. Um editor pode pegar uma sequência filmada pelo diretor e transformá-la em algo completamente diferente e inovador. Algo que o diretor nunca havia pensado quando olhou para o roteiro e filmou a cena.

É claro que grandes diretores dão um material rico para ser montado, mas a versão final é a versão montada. Por isso, é uma arte tão fascinante. É a chance de criar um mundo completamente diferente, dar vida a ele e mostrar para a plateia.

Eu ainda me lembro da primeira vez que vi um filme que eu montei passar no cinema. Eu observava cada reação da plateia e pensava “deu certo aquele corte” ou ”essa é a emoção que eu queria que vocês sentissem”, e eu percebi que isso é ser um bom editor. Senti-me orgulhosa do meu trabalho. Isso me mostrou o poder que a edição tem sobre as pessoas.

Um século depois que Edwin Porter introduziu a montagem, nós, editores, saímos das salas mal iluminadas e nos tornamos os principais colaboradores da história do cinema. O maior papel dentro de um filme é o de um editor. Sem ele não tem história.

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Escrito por Netshow.me

Este artigo foi produzido pela equipe de especialistas da Netshow.me. Oferecemos serviços para gerenciamento, distribuição e monetização de vídeos e conteúdos online. Produzimos conteúdos com o objetivo de fazer com que você também se torne um especialista.